29/07/2007 18:58
A música de Gustavo "Cuchi" Leguizamón
Enviado por: Daniel
Caro Luis:
Li que vc continua a "descobrir" mais músicos argentinos para os colegas do blog que tem interesse por musica. Já foi Oscar Aleman e por último os Les Luthiers..... desta vez não vou deixar vc se antecipar....... estou falando de um pianista argentino, Gustavo "Cuchi" Leguizamón, nascido em Salta, a mesma terra do Falú.
Compunha e tocava piano com um ritmo sincopado que muitas vezes se acercava ao Jazz..... suas obras acompanharam as letras de grandes poetas, como Jaime Dávalos e Manuel Castilla.
Lamentavelmente não encontrei nenhum vídeo dele tocando no Youtube, mais sim músicas dele interpretadas por outros, que já dão uma boa idéia de sua dimensão musical:
Aqui
http://a cantante Guadalupe Farias Gomes com piano de Raul Parentella.
e uma interessante versão em baixo elétrico e percussão de
Willy Gonzalez e Micaela Vita.
e por ultimo uma versão de Rocio Palazzo, de
Zamba del Laurel.
enviada por Luis Nassif
28/07/2007 22:04
O talento de Léa Freire
A música instrumental brasileira passa por uma fase esplendorosa. Não apenas por jovens revelações, mas pela facilidade trazida pelas novas tecnologias, que abriu espaço para o registro de músicos consagrados (no meio) mas desconhecidos do grande público.
O CD "Léa Freire" é uma obra de arte, na linha do "Interiores", do Proveta. Aqui, a faixa
"Bis a Bis" , composição dela, arranjo e requinta de Luca Raele, acompanhado pela requinta de Sérgio Antonio Burgani, o clarone de Luiz Afonso Montanha, o clarinete de Tiago José Garcia e o clarone de Luiz Nivaldo Orsi Filho.
enviada por Luis Nassif
22/07/2007 14:18
Pena Branca e Xavantinho
A primeira vez que ouvi Pena Branca e Xavantinho creio ter sido no programa Vitrine da TV Cultura de São Paulo. Vou lhe contar, poucas vezes na vida uma interpretação me pegou daquele jeito, de ficar suspenso no ar sem conseguir respirar, como a emoção da primeira namorada. Talvez algumas interpretações de Jacob, as guarânias de Luiz Vieira, canções de Caymmi, as primeiras músicas que ouvi de Chico, Gil e Caetano, sei lá, e obviamente Cascatinha e Inhana.
Era isso, a emoção era a mesma da primeira audição de Cascatinha e Inhana, quando tinha meus dez anos e descobri em velhos discos 78 na casa de meu tio Léo. Ficava horas ouvindo Meu Primeiro Amor, Índia, Luar do Sertão, com aquela composição de vozes estranhamente simétricas, com o Cascatinha e a Inhana cantando uma oitava acima.
Apesar de periodicamente ouvir o programa Alvorada Sertaneja na rádio Cultura, apresentado pelo Compadre Zé Tomé e pelo Compadre Mesquita (meu tio Léo, carioquíssimo), as músicas caipira e sertaneja não me impressionavam muito. Não digo os clássicos, Linda Flor do Ipê, Festa Junina, Chuá Chuá, as obras de Valdemar Henrique, Joubert de Carvalho, J. Cascata e Leonel Azedo, Sá Pereira, o imenso Luiz Peixoto, João Pernambuco e outros, além dos paulistas Raul Torres, Capitão Furtado e Inezita Barroso, mas aquela música mais tosca de dupla caipira mesmo.
Nos meus tempos de moleque, havia uma distinção nítida entre a música caipira autêntica e a sertaneja, de funda influência mexicana e paraguaia. Minha casa ficava em frente o largo do São Benedito, onde tinha a quermesse anual mais concorrida de Poços. Todo início de maio, ficávamos nós lá, ouvindo Pombinha Branca, Coração de Mãe e outras menos votadas.
Mesmo depois que vim para São Paulo, toda manhã ia da Vila Maria à USP ouvindo o programa de Moreno e Moreninho na rádio Nove de Julho ou Marconi, não me lembro bem, e gostava muito do Zico e Zeca, de quem conhecia dois ou três clássicos. Gostava também de algumas músicas de Moreno e Moreninho, especialmente as congadas do sul de Minas, e adorava a viola caipira de Cafezal. Mas, no geral, era uma música muito pobre, esganiçada, que não me tocava a alma, mesmo quando interpretada pela mais popular dupla caipira de muitas décadas, Tonico e Tinoco.
Mas Cascatinha e Inhana, nunca ouvi coisa mais bonita. Aliás, até sozinha Inhana era imbatível. Há uns três anos saiu um CD póstumo da dupla, onde Inhana interpreta Carinhoso. Daquele período, não houve cantora romântica brasileira de voz mais bonita e de interpretação mais pungente, com exceção de Elizeth Cardoso e, talvez, de Alaide Costa e Nana Caymmi, na geração seguinte.
Pois Pena Branca e Xavantinho me despertavam as mesmas sensações. Ali no Vitrine, cantando clássicos de Milton Nascimento, Chico e Caetano, Pena Branca e Xavantinho não eram gente, eram anjos de ébano tecendo loas ao Criador. Xavantinho, aliás, tinha voz gêmea de Milton, o maior intérprete da MPB moderna.
Depois daquele dia, não houve show da dupla que eu não fosse atrás, que nem um fã despudorado. Nem tive pejo de pedir seus autógrafos em um desses shows e ruborizei como uma donzela quando escreveram meu nome, sem me perguntar qual era. Meus ídolos me conheciam! Até hoje minhas filhas mais velhas caçoam dessa demonstração de macaquismo explícito.
Todo mês entrava na Musical Box, ali na praça Vilaboim, e a primeira pergunta era se havia algum lançamento novo da dupla. Não perdi um. Eles formavam a linha de frente da música MPB rural de primeira linha, ao lado de Rolando Boldrin, Renato Teixeira, Sérgio Reis e do gênio Almir Satter.
A morte de Xavantinho foi tão triste quanto a de Inhana, muitos anos atrás. Naquele fim de semana, o som de casa ficou ligado direto nos seus CDs, especialmente em Chuá Chuá, de Sá Pereira, a música que me lembra minha mãe.
Lamento apenas que dona Tereza tenha partido antes que a dupla ficasse conhecida. Certamente teria ensinado todo o repertório de Pena Branca e Xavantinho aos seus netos, da mesma maneira que ensinou o de Cascatinha e Inhana aos seus filhos. Ensinaria Cuitelinho, recolhida por Vanzolini, Velho Berrante, do Adauto Santos, o hino a Mazaroppi, do Garfunkel, as músicas do Milton, Chico e Caetano que, na voz da dupla, perdiam o caráter moderno e ganhavam o tom intemporal, que provém das profundezas do tempo e do Brasil. E repetiria com aquela entonação pungente, o tipo de voz tremida que meu avô Issa usava quando cantava Velho Realejo para minha mãe criança, e que compõe o conjunto de valores intangíveis, que caracteriza a raça Brasil.
Para incluir na lista Crônica Semanal
enviada por Luis Nassif
13/07/2007 22:17
O rei do swing
Comecei a me interessar pelo guitarrista argentino Oscar Aleman ainda nos anos 70, depois de ler um comentário do crítico norte-americano Leonardo Feather considerado o maior crítico do jazzreputando-o dono de um swing superior ao de Django Reinhardt, um dos maiores da história.
Na minha primeira viagem à Argentina, em 1985, voltei com meia dúzia de fitas velhas de Aleman, a informação de que ele falecera em 1980 e tinha uma filha de nome Selva, atriz de televisão. Todas as vezes que voltava a Buenos Aires retornava com mais algumas fitas. Em todas elas, standards da música internacional e uma profusão de músicas brasileiras, de Caymmi à bossa nova e, especialmente, no choro.
Na penúltima viagem, resolvi tirar três dias para passear em Buenos Aires e tentar localizar alguma coisa de Aleman e Eduardo Falú esplêndido violonista, cantor e compositor argentino.
Não consegui convencer a filha de Aleman, Índia Morena, que eu era jornalista querendo informações sobre o pai. Ficou desconfiada, querendo que eu enviasse e-mails com mais dados. Não deu tempo de cumprir as exigências.
Na verdade, o que me interessava na visita era saber mais sobre a fase da vida de Aleman em Santos, que marcaria para sempre sua produção. Seu balanço, com mistura de choro, ritmos caribenhos e jazz, forneceu as bases para o jazz latino que, depois, explodiria em Cuba e, especialmente, no estilo Paquito de Rivera.
Em um CD lançado na França, que adquiri anos atrás, soube de sua infância em Santos, da amizade com o violonista santista Gastão Bueno Lobo, de sua volta a Buenos Aires ainda nos anos 20, quando criou a dupla Los Lobos.
O jornalista Alan Romero, radicado em Portugal e minucioso pesquisador da Internet me forneceu informações adicionais sobre Aleman.
Oscar Marcelo Aleman nasceu no Chaco, Argentina, em 20 de fevereiro de 1909. Foi menino de rua em Santos. Tomava conta de carros e se apresentava nos bares do cais dançando, cantando, e tocando cavaquinho. Aliás, tenho duas versões da música D.A. 1925, um tema de jazz de sua autoria, solado no cavaquinho, sem nenhum acompanhamento, de deixar o Armandinho de queixo caído.
A mãe de Aleman era a pianista Marcela Pereira, índia da tribo Toba. O pai era o violonista uruguaio Jorge Alemán Moreira, descendentes de espanhóis. Informações dos biógrafos dão conta de uma família musical e feliz, com muitos irmãos que constituíam o Moreira Sextet.
Em 1919 eles se mudaram para Santos. Em 1920 a mãe morreu em Buenos Aires. No ano seguinte, o pai se suicidou em Santos. Os irmãos mais velhos sumiram e, aos 12 anos, Oscar se tornou menino de rua. Além da música fez de tudo, de palhaço de circo a boxeador.
Em 1924 conheceu Gastão Lobo que depois, na Argentina, virou Gaston-- que o iniciou no choro e no cavaquinho, e mudaria sua vida. Voltou a Buenos Aires, depois passou pelo Rio e seguiu para uma temporada parisiense. Lá, Aleman foi descoberto pela vedete Josephine Baker.
Ficou até 1940 brilhando na França, revezando-se com Django no histórico Hot Club de Paris. Teve inúmeras oportunidades de seguir carreira, uma delas em um convite de Duke Ellington, o maior nome do jazz norte-americano, para integrar sua orquestra.
Deixou tudo para trás e voltou para Buenos Aires. Lá montou diversas formações, de orquestras a quintetos e trios. Suas apresentações com o extraordinário violinista chileno Hernán Oliva nada ficam a dever às históricas gravações de Django com o violinista Stephane Grapelli.
Tem um filme sobre ele, vendido em VHS, "Oscar Alemán - A Swinging Life".
Meu guru Nelsinho Risada, grande cavaquinho, me contou que no início dos anos 50 assistiu a uma apresentação de Aleman. Era um show man, que gostava de tocar com a guitarra nas costas.
Mesmo com essas extravagâncias, está sendo redescoberto e considerado, com toda justiça, um dos maiores guitarristas do século. Graças, em parte, a Gastão Lobo e ao choro.
Links:
Nesse site, além de dados da vida de Aleman, um choro especial composto por ele:
http://www.oscar-aleman.com.ar/
http://www.latinjazznet.com/reviews/video_oscar_aleman.htm
Youtube 1
Youtube 2
Youtube 3
Para incluir na lista Crônica Semanal
enviada por Luis Nassif
08/07/2007 08:00
Os Verdes Campos de Pasárgada
Os Verdes Campos de Pasárgada, gravação do programa "Ensaio", da TV Cultura, com Canto 4 e Zé Barbeiro.
enviada por Luis Nassif
07/07/2007 23:19
Os dogmas da bossa-nova
Os dogmas abaixo foram levantados por mim anos atrás, quando pensava que acharia tempo para escrever um livro sobre a Bossa Nova, a quatro mãos com o Zé Rodrix.
Não deu tempo. Fica aí o roteiro de dogmas para quem quiser se habilitar.
Dogma 1 -- A BN significou uma ruptura na música popular brasileira.
Tomaremos depoimentos de músicos da época, particularmente os que surgiram antes da BN, para avaliar corretamente o que mudou na sua música com o movimento.
Vamos nos basear preferencialmente em depoimentos ao vivo. Fontes preferenciais: Billy Blanco, Johnny Alf, Tito Madi, Os Cariocas e instrumentistas diversos da época. Podemos traçar uma linha do tempo, a partir de 1945, com as músicas que já continham os elementos harmônicos básicos da BN.
Dogma 2 -- A BN representou a vitória do bom gosto sobre o estilo derramado em voga.
Vamos tentar comparar vendagens de discos nos anos 40, 50, 60 e se necessário 70, dividindo o mercado entre a pretensa música culta e a música popularesca.
A intenção é levantar se, no período da BN, houve um aumento da participação da música culta ou não.
Se não houve, a comprovação é a de que a BN cumpriu um papel de música culta da mesma maneira que o samba canção, antes dela, e a MPB depois -- ou muito menos.
Seria interessante se pudéssemos comparar também com clássicos da música brasileira em outros períodos, quando a chamada música culta (aquela que integra hoje em dia os clássicos da MPB) conseguia a um só tempo qualidade e penetração popular.
Dogma 3 -- a BN foi sepultada pela infatilização da música brasileira, com a entrada da música jovem.
Tentaremos levantar toda a fauna que surge em função da BN, os lançamentos oportunistas e mostrar que o "mercado" tentou explorá-la da mesma maneira que à Jovem Guarda. Se não conseguiu não foi em função de nenhum estilo mais elaborado, mas porque a criatividade do movimento se esgotou e a BN se banalizou.
Podemos mostrar também que a BN foi caudatária da conquista do público jovem, na esteira do que era oferecido pelo mercado americano. é o período da Juventude Transviada, das namoradinhas de Hollywood, da Cely Campello.
Mas a BN também trazia esse apelo, ainda que se dirigisse a uma juventude pretensamente intelectualizada.
Dogma 4 -- a BN inaugurou o estilo cool em todas as manifestações culturais e sociais da época, que não existia anteriormente.
Mostraremos que, desde os anos 40, a elite brasileira começara a se modernizar, a buscar a limpeza e o clean.
Mostraremos a evolução da arquitetura e da decoração no Rio (já escrevi sobre isso), as mudanças na poesia, com a geração de 42, a música dos conjuntos vocais, o aparecimento de Caymmi, a simplicidade sofisticada do samba sincopado, e a evolução harmônica e temática do samba-canção. E a larga tradição de letras não rebuscadas da música brasileira pré-bossa nova.
Dogma 5 - A produção da BN foi a mais rica e sofisticada da música brasileira
Vamos tentar romper com a visão repetitiva e convencional de que a BN foi fruto da influência do jazz e de Debussy e tentar mostrar que a maioria das canções relevantes da BN não podiam ser classificadas como BN pura.
Para isso, teremos que discutir uma metodologia para identificar o que é samba canção, samba choro, samba sincopado e o que é BN pura. Aí poderíamos fazer uma linha do tempo com as músicas mais expressivas, tidas como BN e conferir se eram de fato.
Feito isso, separaríamos as músicas BN típicas para delimitar claramente a sua abrangência e importäncia. Acho que vai aparecer uma infinidade de composições menores de compositores menores: a fauna que gravitou em torno do movimento, não conhecia a música popular pré-BN e acabou por produzir uma música inexpressiva.
enviada por Luis Nassif
01/07/2007 11:16
A música de Paulo Soledade
Publicada originalmente em 01/11/1999
A primeira vez que ouvi Estão voltando as flores ao vivo foi em um barzinho de Santos, o Chão de Estrelas, em 1971. Antes, ouvira algumas vezes na voz potente de Helena de Lima. Miltinho, cantor ainda em voga, ia se apresentar. Antes dele, subiu ao palco um senhor, creio que apresentou-se como sogro e empresário, e cantou a música: Vê, estão voltando as flores / Vê, nessa manhã tão linda / Vê, como é bonita a vida / Vê, há esperança ainda. Ele dá uma solfejada no Vêee que era uma graça. Confesso que fui meio inconveniente, pedindo dois bis. Afinal, o show era do Miltinho.
No final, fui perguntar da música. Tão bonita quanto ela, era sua história. O autor tinha ficado muito doente, dado como desenganado, e uma manhã o médico chegou em sua cama, no hospital, e anunciou que a doença fora vencida. Dali para frente, virou meu hino de esperança, acompanhando-me nos piores momentos de minha vida.
O autor era Paulo Soledade, que por duas vezes anunciei, aqui, vontade de conhecer. Através da extraordinária Enciclopédia da Música Brasileira, do Publifolha, --que ganhei na semana passada, depois de relacionar uma série de autores que desconhecia--, fico sabendo mais de Soledade.
Paulo Gurgel Valente do Amaral Soledade nasceu em 1919, há 80 anos portanto, em Paranaguá, Paraná, mas desde logo tornou-se membro da escola mais galante dos cariocas honorários. Com cerca de vinte anos fez teatro com Ziembinsky. Depois, entrou na Força Aérea e ajudou a fundar o famosíssimo Clube dos Cafajestes, além de compor seu hino.
Em 1942 foi para os Estados Unidos, fez curso de caça e voltou pasme!como tenente da força aérea americana. Trocou por uma carreira de comandante na aviação civil, que abandonou sete anos depois, por problemas de saúde. Foi homem da noite, montando a famosa casa Zum Zum, que abrigou os primeiros ícones da bossa nova no início dos anos 60.
Seu repertório é pequeno, porém estupendo. Estão Voltando as Flores é de 1961. Em 1952, com Marino Pinto, compôs o Estrela do Mar, sucesso fulminante de Dalva de Oliveira (Um pequenino grão de areia / que era um pobre sonhador / olhando o céu viu uma estrela / e imaginou coisas de amor). Em 1954, com Vinícius de Morais, compôs Poema dos Olhos da Amada, tão espessamente romântico que parecia até Tom Jobim daqueles anos (Ó minha amada / que olhos são seus / são cais noturnos / cheios de adeus). Em 1956 compôs São Francisco, também com Vinícius, que viria a se popularizar no início dos anos 80, em um disco de cantigas de criança que tinha Chico Buarque, MPB4, Marina Lima entre outros. Em 1949, com Fernando Lobo, compôs Zum Zum (ô zum zum zum zum zum zum / está faltando um), em homenagem a um companheiro de aeronáutica, que morrera. Essa música fez parte de meu repertório juvenil, trazida por Edu Lobo, filho de Fernando Lobo. Tudo isso sem contar Insensato Coração (com Antônio Maria).
Pois o velho Soledade, que meu amigo Pelão tinha me prometido apresentar quando fôssemos ao Rio, morreu a semana passada, recebendo menos destaque na imprensa brasileira que a morte, por exemplo, de Alberta Hunter
Mas para os da minha geração, brasileiros de profissão esperança, até o final dos nossos dias os oito versos do Estão Voltando as Flores continuarão sendo o símbolo máximo de um povo que pode perder batalhas, mas não perde a fé: Vê, as nuvens vão passando / Vê, um novo céu se abrindo / Vê, o sol iluminando / Por onde nós vamos indo".
enviada por Luis Nassif
17/06/2007 11:57
Os Trigêmeos Vocalistas
Crônica de 22/09/2001
Há algumas cenas de infância que ficam registradas em todos seus detalhes na memória. Lembro-me até hoje no barracão do fundo da casa do meu tio Léo, com minhas primas mais velhas, a Cristina e a Rosa Maria ensaiando a primaiada para um esquete como a gente dizia que iríamos apresentar no sanatório de Divinolândia.
Uma das músicas dizia assim: não sei se / meu vizinho quer ou não / me enlouquecer com seu piano alemão. Era nossa preferida. A segunda música era o Cachimbão, ambas cantadas pelos Trigêmeos Vocalistas que, minhas primas juravam, além de cantar e tocar sapateavam. Eram os nossos Andrews Sisters.
Daquela geração de intérpretes curiosos, os que eu mais gostava eram os Trigêmeos e o Bob Nelson o rei do faroeste, sobre quem falarei qualquer dia desses. Em quase todas as suas músicas eles davam aquele floreio de voz, em falsete, imitando os tiroleses.
Foi algum tempo depois, acho que em uma das comédias da Atlântida, que vi pela primeira vez aqueles três, cara de italianões de bem com a vida, sapateando, cantando de forma harmônica, enfiando larilalá tirolês em tudo quanto era samba.
O conjunto foi criado em 1937 pelos irmãos Armando Carezzato (1917) e os gêmeos Raul (1921) e Humberto, de uma enorme família italiana que morava no Brás, entre a rua Oriente e o alto do Pari. Humberto era o crooner e o cavaquinho, Raul o baixo, e tocava ritmo e flauta, Armando a terceira voz e violão tenor. O sapateado era feito por Humberto e Raul.
Em 1939 foram contratados por Raul Roulien -- cantor brasileiro que fizera sucesso em Hollywood -- para uma temporada no Cassino Atlântico, do Rio. Seu primeiro grande sucesso foi Linda Baiana, de autoria do trio e de Álfio Miranda. Seu maior sucesso -- eu nem sabia que era deles, mas minha mãe cantava todo dia, e quando a gente ia passar férias em São Sebastião da Grama, o povo de lá gostava bastante foi o Sarita adeus Sarita / vou partir para a fronteira / vou levar minha boiada / pra vender lá na feira / Com o dinheiro dessa venda / eu vou comprar / mais uma linha fazenda / e contigo namorar.
Estrearam no Cassino da Urca em 1942, ao mesmo tempo em que Pedro Vargas fazia uma temporada cantando o clássico Besame Mucho. No Rio, trabalharam durante 22 anos na rádio Nacional, gravando autores dos mais clássicos aos mais extravagantes. Cachimbão era de B. Toledo. Piano Alemão era música de um certo Nagib. Em 1940, pela Odeon, gravaram Sacrifício Demais (Assis Valente e Leandro Medeiros) e Vieni, Vieni de Vicente Scotto.
Adoravam músicas que falavam em Zorro, Tigre, Tonto. Mas gravaram sambistas clássicos como Quem Pode Pode, Quem Não Pode se Sacode do histórico Bucy Moreira. De Nelson Cavaquinho gravaram Agora é tarde (quem é você / pra dizer que manda no meu lar / agora é tarde / outro amor está no meu lugar). Compuseram com Grande Otelo, Blackout, Jararaca.
Aposentaram-se em 1971. Faz seis anos que morreu Armando, o mais velho, violão tenor e dono da voz mais aguda. Os gêmeos Raul e Humberto estão firmes na paçoca. No dia 25 de março completaram 80 anos. Ambos moram juntos no Rio e estão passando uma temporada em Guarujá na casa de uma irmã.
Ao telefone, Raul começa a desfiar seus maiores sucessos, como Dom Pedrito (Djalma Esteves e Célio Monteiro) -- lá vem o dom Pedrito / montado num burrico / cantando o.... E o Humberto lascava o tirolês final. O sapateado foi responsável por um de seus maiores sucessos, um fox que dizia:Eu vou sapatear eu gosto tanto, tanto / de sapatear / se eu pudesse eu sapateava / dia e noite sem parar (Nicolau Bruni).
Ao todo, gravaram quase 400 discos de 78 rotações. No momento estão passando todos os discos em fitas cassetes. E acham que, devido aos avanços do tempo e da globalização, da modernização dos costumes e tudo o mais, poderão gravar uma música interditada há muitas décadas, com evidente prejuízo para o cancioneiro popular, de nome Peru de Fora -- peru de for não se manifesta / o meu peru é que se faz a festa / com farofa bem fofinha / danço o galo e a galinha / meu peru não sai da roda / rodopia na farinha.
Para incluir na lista Crönica Semanal
enviada por Luis Nassif
26/05/2007 19:35
O cançonetista brasileiro
Na enorme geléia geral da música popular brasileira, um personagem que teve destaques décadas atrás foi o cançonetista, o chansonneur, de acordo com a influência trazida por Maurice Chevalier.
Em um período em que os cantores americanos dominavam, de Frank Sinatra e Bing Crosby a Pat Boone e Elvis Presley, Chevalier era uma exceção admirável. Além disso, o grande ambiente artístico daqueles tempos eram os cassinos fechados em 1946--, apropriados a esse tipo de crooner, que não apenas cantava como representava.
Nos cassinos de Poços, fez enorme sucesso Juan Daniel pai do diretor Daniel Filhoque pegava o microfone e caminhava pelo salão de baile, cantando e jogando galanterias para os casais.
Não peguei esse período. Passei a ter noção maior das coisas lá por volta de 1958, aos oito anos de idade. E aí a referência absoluta de música era a rádio Nacional, e nosso cançonetista predileto era Ivon Cury. Meu pai comprava todos os 78 lançados por ele. Anos depois, Moacir Franco seria seu sucessor, inclusive trazendo pela primeira vez para o Brasil a Balada de um Louco, de Piazzola, no início dos anos 70.
Ivon nasceu em Caxambu e seguiu para o Rio junto com seu irmão Jorge Cury, na época o mais conhecido comentarista de futebol do rádio. No início trabalhou na Orquestra do Zacarias, que tocava no Copacabana Pálace. Em 1947 foi contratado pela rádio Nacional, onde viveu cerca de quinze anos de imenso prestígio.
Na época, a rádio Nacional atendia a todos os gostos. Seu famoso cast cobria todos os setores de público, de Francisco Carlos (o queridinho do público jovem), a Marlene e Emilinha, passando pelos melhores arranjadores nacionais de todos os tempos, liderados por Radamés Gnatalli. E, nela, Ivon Cury era o grande destaque.
Havia grandes cantores de sambas-canção e músicas estrangeiras, como Dick Farney e Lúcio Alves. Ivon tinha uma voz quase tão bonita quanto a de Dick, um aveludado que não chegava a transbordar, e uma enorme versatilidade musical.
Em seu repertório havia lugar para as canções francesas. "C'est Si Bon" e "La Vie en Rose", para o repertório de Chevalier e de Edith Piaf, e para inúmeras versões musicais. Esse fato fez com que não fosse completamente aceito nos templos da chamada música popular autêntica, o que contribuiu para que sua memória se diluísse no tempo.
No entanto, foi um notável intérprete dos mais variados tipos de música brasileira. Era muito engraçado interpretando músicas buliçosas nordestinas, como Perfume Nacioná (Zé Dantas), sambas canções da última fase, como Amendoim Torradinho (Henrique Beltrão), os sambas canções de Caymmi (Sodade matadeira, Dora, Nunca Mais, Não Tem Solução), toadas como e o Xote das Meninas (Luiz Gonzaga Zé Dantas), que fez mais sucesso com ele do que com o próprio Luiz Gonzaga, a Farinhada, o Xote Miudinho, a valsa o João Bobo imenso sucesso de sua autoria ("João bobo, coitado, tolinho / Falava sozinho, sempre a caminhar/ Mas quando passava ao seu lado /A Rosa do prado, parava a olhar. / Rosinha era moça bonita / De seda ou de chita chamava atenção / A todos seu amor vendia / Mas nada queria c'o pobre do João... Ai, João bobo é gozado / Quer casar (ah ah ah) co'a Rosa do prado").
Luiz Vieira, o grande nome da toada e da guarânia teve em Ivon Cury o passaporte para o sucesso, através de inúmeras gravações, como o belíssimo Vá Com Deus (Álvaro Mattos/Luiz Vieira) e Estrada de Columbandê e o clássico Menino de Braçanã.
As qualidades histriônicas de Ivon, seus trejeitos, fizeram com que, paralelamente à carreira musical, fosse um dos pioneiros da televisão brasileira, participando do histórico TV na Taba, da Tupy, apresentado por Homero Silva, ao lado de artistas como Lima Duarte, Hebe Camargo, Mazzaropi, Lolita Rodrigues, Wilma Bentivegna, e a orquestra de George Henri, entre outros. Nos anos 60 ainda era um sucesso tão retumbante, que seu casamento com uma aeromoça de nome Ivana dominou os noticiários da época, assim como as perucas que passou a usar.
A rapaziada que o visse no final de carreira, fazendo ponta na Escolinha do Professor Raimundo, sem chance para cantar, jamais poderia imaginar a influência que suas canções tiveram sobre seus pais e avós.
Foi uma referência na canção e na televisão brasileiras.
Para incluir na lista Crönica Semanal
Enviado por: RENATO
NASSIF, bom dia.
Ivon Cury, bem como toda a família Cury é um marco em Caxambu e sul de Minas. Nasci em uma cidade a 60Km de Caxambu e conheço um pouco a famosa trajetória dos Curys.
Ivon é um exemplo da vitória da VIDA, da vitória sobre o Aborto. Sua mãe faleceu durante o parto, mas disse aos médicos, caso tenha que salvar alguém salve meu filho.
É triste e ao mesmo tempo emocionante, doar a vida ao irmão, ao filho.
Abraços,
enviada por Luis Nassif
26/05/2007 13:28
Youtube em um fim de semana
Enviado por: Lucas Jerzy Portela
Mouro, o Bando Virado no Mói de Coentro, de que lhe falei. Dois vídeos no youtube:
Vídeo 1
Vídeo 2
Más notícias: Pajeú não é mais vocalista da Volante. Pena. Por outro lado, isso os levou-os a serem melhores ainda na musica - ou talvez isso tenha ficado evidente.
Por exemplo: no cláááássico \"Luiz, respeita Januário\", o refrao musical é com frase basica de rockzinho dos anos 50 (twist); em \"Que falta eu sinto de um bem/ que falta me faz um xodó\", o refrao musica é com riffs zepellinianos.
(coisa curiosa: nao sei se voce gosta do Zeppellin, nem dessa proposta antropofagica de voltar-se ao tradicional, modernizando-o up-to-date com o resto do mundo. gosta?)
Ontem, como foi um forró unificado, teve gato e cachorro. Ai, a banda anterior a Volante foi uma zorra ordinaria cujo nome refere-se a um utensilio de cozinha, toca um oxente-music pra-mauricinho-garrar-mulé, horrivel!
Mas vale a pena esperar a Volante até 3 da manha, apesar da chuva...
(me diga o que achaste da Volante e do Bando, ok?)
Enviado por: Antonio Francisco
Um pequeno trecho da Traviata, cantada por
Cristina Nassif.
Luis Nassif canta ao violão,
Marianinha, com acompanhamento ao piano:
Luis Nassif e grupo musical canta
Congada
Enviado por: Novaes
Paul Leroy Bustill Robeson, baixo barítono nasceu em 1898 e morreu em 1976. Cantor, ator, ativista dos direitos humanos, graudado em direito e uma grande voz.
enviada por Luis Nassif
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