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07/07/2007 23:19

Os dogmas da bossa-nova

Os dogmas abaixo foram levantados por mim anos atrás, quando pensava que acharia tempo para escrever um livro sobre a Bossa Nova, a quatro mãos com o Zé Rodrix.

Não deu tempo. Fica aí o roteiro de dogmas para quem quiser se habilitar.

Dogma 1 -- A BN significou uma ruptura na música popular brasileira.

Tomaremos depoimentos de músicos da época, particularmente os que surgiram antes da BN, para avaliar corretamente o que mudou na sua música com o movimento.

Vamos nos basear preferencialmente em depoimentos ao vivo. Fontes preferenciais: Billy Blanco, Johnny Alf, Tito Madi, Os Cariocas e instrumentistas diversos da época. Podemos traçar uma linha do tempo, a partir de 1945, com as músicas que já continham os elementos harmônicos básicos da BN.

Dogma 2 -- A BN representou a vitória do bom gosto sobre o estilo derramado em voga.

Vamos tentar comparar vendagens de discos nos anos 40, 50, 60 e se necessário 70, dividindo o mercado entre a pretensa música culta e a música popularesca.

A intenção é levantar se, no período da BN, houve um aumento da participação da música culta ou não.

Se não houve, a comprovação é a de que a BN cumpriu um papel de música culta da mesma maneira que o samba canção, antes dela, e a MPB depois -- ou muito menos.

Seria interessante se pudéssemos comparar também com clássicos da música brasileira em outros períodos, quando a chamada música culta (aquela que integra hoje em dia os clássicos da MPB) conseguia a um só tempo qualidade e penetração popular.

Dogma 3 -- a BN foi sepultada pela infatilização da música brasileira, com a entrada da música jovem.

Tentaremos levantar toda a fauna que surge em função da BN, os lançamentos oportunistas e mostrar que o "mercado" tentou explorá-la da mesma maneira que à Jovem Guarda. Se não conseguiu não foi em função de nenhum estilo mais elaborado, mas porque a criatividade do movimento se esgotou e a BN se banalizou.

Podemos mostrar também que a BN foi caudatária da conquista do público jovem, na esteira do que era oferecido pelo mercado americano. é o período da Juventude Transviada, das namoradinhas de Hollywood, da Cely Campello.

Mas a BN também trazia esse apelo, ainda que se dirigisse a uma juventude pretensamente intelectualizada.

Dogma 4 -- a BN inaugurou o estilo cool em todas as manifestações culturais e sociais da época, que não existia anteriormente.

Mostraremos que, desde os anos 40, a elite brasileira começara a se modernizar, a buscar a limpeza e o clean.

Mostraremos a evolução da arquitetura e da decoração no Rio (já escrevi sobre isso), as mudanças na poesia, com a geração de 42, a música dos conjuntos vocais, o aparecimento de Caymmi, a simplicidade sofisticada do samba sincopado, e a evolução harmônica e temática do samba-canção. E a larga tradição de letras não rebuscadas da música brasileira pré-bossa nova.

Dogma 5 - A produção da BN foi a mais rica e sofisticada da música brasileira

Vamos tentar romper com a visão repetitiva e convencional de que a BN foi fruto da influência do jazz e de Debussy e tentar mostrar que a maioria das canções relevantes da BN não podiam ser classificadas como BN pura.

Para isso, teremos que discutir uma metodologia para identificar o que é samba canção, samba choro, samba sincopado e o que é BN pura. Aí poderíamos fazer uma linha do tempo com as músicas mais expressivas, tidas como BN e conferir se eram de fato.

Feito isso, separaríamos as músicas BN típicas para delimitar claramente a sua abrangência e importäncia. Acho que vai aparecer uma infinidade de composições menores de compositores menores: a fauna que gravitou em torno do movimento, não conhecia a música popular pré-BN e acabou por produzir uma música inexpressiva.

enviada por Luis Nassif






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